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Tom Collins e o elogio da cultura

Opinião

Dizem que andava lentamente. Mais corpulento do que magro, mais alto do que baixo. Arrastava-se entre a O´Connell Street, onde habitava um bafiento sótão, cuja única janela existente dava para um lúgubre saguão, cinzento de humidade. O único apontamento de cor era um vaso de ervas-daninha qua a Madame Calahan teimava em cuidar.

A viuvez assentava-lhe como o casaco que vestia. Preto. Umas vezes mais aberto de liberdade, outras apertado de solidão. Gostava de ler, mas não o fazia há mais de uma década, quando a vista desistiu.

Sobrevivia vendendo sonhos no pub do Hotel Heritage, no 72 da Parnell Street. Sonhos líquidos. Preparava magia pura com aquelas mãos enormes que vulgarmente partiam copos aos pares. Tom Collins fazia da miscigenação de destilados uma arte, e cada xelim que sobrava depois de garantida a subsistência, era destinado ao seu único vício – a cultura.

Tom Collins assistia a operetas, cantos a capella em caves bolorentas, teatros de rua e de casa, e frequentemente partilhava algum alimento com uma pequena mulherzinha que declamava poesia para evitar dormir ao relento de estômago vazio.

Se perguntarmos em Dublin – “have you seen Tom Collins?” – a resposta será invariavelmente a mesma – “who?” – dirão. Mas se pedirem um Tom Collins num qualquer bar de uma cidade “civilizada” apresentam-vos uma mistura de Gin, xarope de açúcar, lima e soda. Se correr bem, nas devidas proporções.

 

CULTURA, substantivo feminino – Acto, arte, saber, apuro, perfeição.

Esta nossa cidade dos canais tem e sempre teve uma relação de amor/ódio com a cultura. Amor quando a quer e deseja e ódio quando a não entende, critica, e passa por ela fingindo não a ver. Este estigma contagiante de que a cultura só acontece no Porto e em Lisboa tem tanto de gasto como de absurdo.

Num 1º Ato achamo-la cara, elitista, desinteressante. Queixamo-nos da acústica, das intempéries na sala e na estrada, dos feed-backs e dos delays. Num 2º Ato, pura e simplesmente a inércia vence, e somos engolidos pelo maior aliado da estupidificação humana: o sofá. Quando alguém tenta sobressair do determinado circuito independente, ou é estrangulado por um cefalópode de 8 tentáculos, ou é brilhante e não existe disjuntor que o desligue.

 

ELOGIO, substantivo masculino – Louvor, manifestação discursiva em favor de alguém, gabo.

Para que a cultura não morra como a culpa, precisa desesperadamente de sair das mãos de “pequenos” seres, retirados de moldes com formato de casulos que produzem traças. Se estivessem arrumados em qualquer arquivo de uma secretaria de estado, estariam catalogados algures entre a letra i e a k.

A cultura deverá ser entregue a quem a pensa, cria, produz e sofre por ela.

Bravo à criação, desde a sua forma mais despojada à criação mais complexa.

Bravo aos que juntamente com tantos outros têm esta ousadia estranha de elogiar o juntos, para que alguns sobressaiam.

Bravo a eles que se unem ao vício inebriante do Tom Collins, a cultura.

Essa mágica palavra que nos inunda os sentidos e enche de alento aquilo que chamamos vida.

Além de Ministério… precisamos de vontades.

 

* Este texto foi escrito ao abrigo do álbum Estendal, do Coelho Radioactivo e os incontornáveis Plutónio. Com direito a repeat na Perséfone.

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