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Enquanto houver araras nas árvores

Opinião

Pouco passa das 8 da manhã e sento-me numa das mesas do café do meu bairro. Os três jornais - o Diário de Aveiro, o Jornal de Notícias e O Jogo – já estão tomados. Espero pacientemente, bebendo o café em goladas lentas, lendo o último artigo da AveiroMag, espreitando o Whatsapp ou olhando a tv distraidamente.

Os jornais vão mudando de mãos e chega finalmente a minha vez. Folheio o JN e vou percorrendo alguns títulos com o olhar: Inquilinos já são gestores de prédios municipais (em Matosinhos); Descoberta de batistério faz prolongar obra em Gaia; Linhas de telefone na Maia para ajudar população sénior; Biblioteca municipal vai abrir aos sábados (em Arouca); Escola solidária forneceu mais de 23 mil refeições na pausa do Natal (no Porto); Braga aprova plano para reforçar certificação como cidade sustentável; Andor da Senhora da Pena candidato a património cultural (em Vila Real); Bombeiros retiram arara do alto de uma árvore (em Barcelos).

Da minha experiência de frequentador de cafés e de leitor de jornais, concluí que existe nos cafés uma tensão quase cómica na forma como os jornais são disputados. Já vi pessoas assumirem uma posição de vigilância nervosa fitando o jornal na mesa ao lado e o respectivo usurpador. Mal o jornal fica livre, precipitam-se para ele, como se impulsionado por potentes molas, para se anteciparem à concorrência.

Embora as tiragens sejam cada vez mais pequenas, ler os jornais em papel é um hábito que alguns ainda cultivam – são, da minha observação empírica, quase sempre pessoas mais velhas, que ganharam essa rotina dos longínquos tempos pré-digitais. Quando estas gerações desaparecerem, que futuro terá o papel?

A evolução dos números parece mostrar que o papel se encontra num preocupante estertor mas apesar de tudo vai ainda resistindo. Nas minhas deambulações pela região é comum parar nos pequenos cafés de aldeia - talvez não se conheça uma terra se não se conhecerem os seus cafés. Bebo um café e, quando se proporciona, troco umas palavras com quem está atrás do balcão, em muitos casos velhos homens ou mulheres com vontade de falar da vida. Em quase todos encontro jornais. Recentemente entrei no Café Alegria da Terra, em Vila Seca, às portas de Sever do Vouga. O dono, um homem de quase 80 anos, percebe a minha curiosidade e fala de si, da terra, do estabelecimento. Diz às tantas que todos os dias desce a Sever do Vouga, de manhãzinha, para comprar o jornal na papelaria da vila - e lá está ele, o JN, no tampo de uma das mesas, parcialmente forrada por um pano verde porque ali também se joga à sueca.

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A crise dos jornais e do jornalismo é uma conversa antiga. Em Portugal, o debate recrudesceu novamente devido à dramática situação do grupo do JN, do DN e de outros órgãos. Gerir uma empresa de media é certamente complexo e não haverá soluções miraculosas. Mas uma coisa é certa: não existe democracia sem escrutínio. É por isso fundamental não deixar morrer o jornalismo livre e as redações que o praticam, trabalhem elas para edições em papel ou para novos formatos digitais – e cada um de nós, à sua pequena escala, pode dar uma ajuda, comprando ou assinando. Porque crises políticas, crimes, obras e araras nas árvores haverá sempre – e é preciso haver alguém para as contar.

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