Já não precisamos de praças cheias para ouvir os novos líderes, basta um ecrã, uma frase curta, um inimigo à mão. O populismo reinventou-se: veste roupa casual, fala em “nome do povo” e sorri para a câmara como quem fala para um velho amigo. Já não precisa de gritar; basta repetir o que o público quer sentir. A raiva, agora, é mais polida, mas não menos eficaz.
Durante décadas, acreditámos que a informação traria lucidez. Que o acesso ao conhecimento seria a vacina contra a manipulação. Mas a verdade é que quanto mais sabemos, mais confusos nos tornamos. O populismo não prospera na ignorância, mas no excesso de ruído. Alimenta-se do cansaço de quem já não distingue o verdadeiro do verosímil, e do desencanto de quem só quer alguém que simplifique o caos.
O novo populista não promete revoluções, promete conforto. Fala de segurança, de identidade, de ordem; conceitos vagos o bastante para caberem em qualquer bandeira. Não precisa de explicar, basta emocionar. A política torna-se psicologia, e o eleitor, paciente em busca de cura para um mal difuso: o medo.
O perigo está na estética da sinceridade. O populista moderno domina a arte do “parecer autêntico”: erra de propósito, ri fora de tempo, mostra-se humano e, nessa teatral humanidade, ganha poder. É o triunfo da narrativa sobre a ideia, da emoção sobre a razão.
Mas o populismo não é um acidente, é um espelho. Mostra-nos o que a democracia deixou por cuidar: a solidão das pessoas comuns, a desigualdade que o discurso oficial não resolve, a nostalgia de uma ordem perdida. E enquanto a política tradicional continuar a falar em relatórios e percentagens, o populista falará em dor. E vencerá.
Talvez resistir ao populismo não seja combater quem o encarna, mas curar as feridas que o alimentam. Reencontrar a linguagem do comum, devolver à política a dignidade de ouvir. Porque o populismo é, antes de tudo, o grito de quem se cansou de não ser ouvido.