Daniela Alegria*
Muito se tem escrito sobre São Gonçalinho de Aveiro — umas vezes com fé declarada, outras com a alma salgada de quem nasceu virado à ria. E, apesar de o considerarmos absolutamente nosso, o Menino, como carinhosamente lhe chamamos na Beira-Mar, não pertence apenas às nossas gentes. A devoção a São Gonçalo de Amarante estrutura esta festividade cíclica de inverno, mas não se esgota em Aveiro. Basta olhar para as festas de São Gonçalo de Mafamude e de Santa Marinha, em Vila Nova de Gaia, igualmente celebradas por estes dias, para perceber que estamos perante um fenómeno mais vasto.
Há, contudo, um traço comum que as une: são, quase todas, reconhecidas como património cultural imaterial. Em Aveiro, o “nosso Menino” mereceu honras maiores, integrando o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial — uma ferramenta essencial para salvaguardar práticas sociais, rituais e eventos festivos que perpetuam a identidade de uma comunidade. Ano após ano, esta reafirma a sua capacidade de agregação, de renovação dos vínculos sociais e de fortalecimento dos laços de fraternidade e convivência, sempre em torno de uma devoção partilhada.
Outrora circunscrita quase exclusivamente ao bairro da Beira-Mar — território de pescadores e salineiros —, a festividade tem a sua génese, segundo a matriz do PCI, no culto a São Gonçalo de Amarante, beato associado a milagres ligados a males dos ossos, deformidades, questões de afetos, pescarias escassas e outras inquietações próprias das comunidades piscatórias. Trata-se de uma devoção popular, de uma romaria que se expressa fora do formalismo e da austeridade das grandes celebrações católicas.
Para compreender como chegámos aos nossos dias com este fervor persistente, é necessário recuar no tempo. As romarias, de matriz fundamentalmente cristã, têm registo desde o século II, sobretudo associadas às peregrinações aos lugares da vida e morte de Cristo. Mais tarde, Roma tornou-se destino privilegiado, símbolo do martírio cristão e guardiã dos túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo. Ainda assim, as jornadas religiosas estendem-se a todo o mundo, atravessando culturas e religiões.
Em Portugal, as festas, feiras e romarias em culto a figuras processionais são conhecidas desde as celebrações do Corpo de Deus, instituídas em 1264 no Sínodo de Liège. Espalharam-se pelo país sob a forma de cortejos históricos que, ao longo dos séculos, incorporaram música, danças e grupos folclóricos, refletindo a identidade regional e nacional. Cada romaria é, no fundo, um espelho do lugar onde se celebra.
São Gonçalo nasceu em 1187, em Arriconha, Tagilde, na região de Guimarães, descendente da nobre família dos Pereiras. Foi educado no Convento Beneditino de Santa Maria do Pombeiro, em Felgueiras, preparando-se para a vida sacerdotal. Durante catorze anos peregrinou por Roma e Jerusalém. Ao regressar, encontrou o seu lugar de pároco em São Paio de Vizela ocupado pelo sobrinho, que, com documentos falsos, o dera por morto. Perante tal injustiça, retirou-se para as margens do Tâmega, onde construiu uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Assunção, vivendo como eremita e pregando nas povoações vizinhas.
Ingressou mais tarde na Ordem dos Dominicanos, no Convento de Guimarães, de onde voltou a partir para uma vida itinerante de pregação. Dedicou-se incansavelmente aos pobres e aos doentes, até à sua morte, a 10 de janeiro de 1262. No local da primeira ermida foi construído, em 1540, um imponente templo e convento onde repousa o seu corpo. A beatificação ocorreu em 1561, a pedido de D. João III, e em 1671 o Papa Clemente X autorizou a celebração da missa e do ofício litúrgico em sua honra.
A devoção a São Gonçalo está intimamente ligada à tradição jacobeia da peregrinação a Santiago de Compostela. Muito antes da cristianização, os pagãos já caminhavam até ao Finisterra, o “Fim da Terra”, onde acreditavam que o Sol morria. A memória dessas peregrinações sobreviveu em forma de mito e lenda, permitindo a continuidade de práticas religiosas cujas origens se perdem no tempo.
O culto a São Gonçalo disseminou-se sobretudo nas proximidades dos conventos dominicanos, instalados em Santarém (1222), Coimbra (1227) e Porto (1238). Em Aveiro, a Ordem dos Pregadores obteve autorização papal para fundar convento em 1423. Há indícios claros de que a expansão do culto resultou de um impulso renovador dominicano, com a construção de pequenas ermidas ao longo dos caminhos jacobeus, frequentemente associadas a invocações a São Tiago.
Na Diocese de Aveiro, as paróquias de Vagos e Beduído, em Estarreja, ambas dedicadas a São Tiago, assumem particular relevância. Na freguesia da Glória, existiu ainda uma capela de São Tiago, alegadamente situada no limite sul da cidade, junto às marinhas de sal, no caminho para Verdemilho. Tudo aponta para uma estratégia de articulação entre a devoção a Santiago e o culto a São Gonçalo, promovida pela Ordem Dominicana.
Estamos, pois, perante algo muito mais antigo do que à primeira vista parece. Apesar de todas as camadas históricas que se foram sobrepondo, o teor pagão do culto ao Menino permanece intacto. A Dança dos Mancos é disso exemplo, testemunhada por Almeida Garrett em O Arco de Sant’Ana- “Na Sé do Porto, tinha o Santo festa notável (…). Diante do próprio altar do santo, havia danças extravagantes, em que tomavam parte donzelas e viúvas, meneando-se com espantosa desenvoltura e entoando coplas de fazer corar toda a gente. (…) Dançar, dançavam os Cónegos do Porto, ainda em tempo de minha avó que o viu, e mo contava quando eu era pequeno. Dançavam sim, diante do altar de S.Gonçalo, no seu dia”.
Hoje, com a cidade em permanente mutação e a memória dos lugares físicos a esbater-se, apetece-me dizer que, por mais altas que se ergam as torres do paraíso, os meus ossos apenas me permitem subir à torre da Capela de São Gonçalinho — para fazer repicar o badalo mais querido dos cagaréus.
Vamos, pois, todos em romagem, nosso menino adorar!
* Gestão Património Cultural pela Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Especialista em Património, Artes e Turismo Cultural.