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O que existe de Aveiro na escrita de Nuno Camarneiro?

Opinião

Aveiro vista pelo olhar de quem por cá passou e se deixou mergulhar na cidade que se presta aos melhores devaneios.

 

Para Nuno Camarneiro, "Aveiro tem o céu e o mar, tem silêncios de gaivotas e uma luz esquisita, que deve ser olhada de forma oblíqua. O olhar oblíquo é próprio da literatura, talvez por isso a cidade se preste aos melhores devaneios". Foi em Aveiro que escreveu parte do seu primeiro livro e também o segundo e ambos são um convite a conhecermos mais sobre os outros, a ousarmos ir além das aparências e dos estereótipos e, sobretudo, a questionarmos e, voltarmos a ser crianças e, como estas, não nos conformarmos com qualquer resposta. O autor escreveu também três livros infantis que são uma verdadeira lição para todos os adultos pela mensagem viva de apelo à curiosidade e à insatisfação com as respostas que o mundo nos dá.

Mas hoje o meu convite é para vos sugerir um livro, e conhecer o seu autor e, sobretudo o papel que a nossa bonita cidade de Aveiro teve na sua escrita, porque os locais por onde passamos deixam sempre marcas e a marca de Aveiro é viva e em constante mudança.

Quando li o primeiro livro de Nuno Camarneiro “No meu peito não cabem pássaros”, fiquei absolutamente rendida pela aparente facilidade, mas sobretudo com a subtil leveza com que borda as suas palavras misturando, de forma despretensiosa, o estilo literário de Kafka, Borges e Pessoa com uma naturalidade que os imaginamos numa conversa ao fim da tarde ao pé do mar.... E o mar, ficámos a saber, é um dos seus elementos de inspiração, o mar e o vento, que encontrou na Figueira da Foz e em Aveiro.

Só mesmo um grande autor e leitor conseguem brincar com os grandes autores, os “intocáveis” do seu e de todos os tempos e contar histórias que, pensadas antes, muito antes da pandemia, passadas mais de um século antes, são mais atuais do que poderíamos imaginar. De facto, no seu primeiro livro é mesmo o que vamos encontrar e por isso vos desafio a refletir sobre a pandemia e os seus efeitos pelos olhos e com os sentimentos dos três homens tão especiais que os tornam próximos. Mas só alguém muito especial consegue brincar com os “intocáveis” e ser respeitado pela “brincadeira" que dá tao bom resultado.

Hoje não vos trago só um livro, trago-vos o autor que lhe deu asas porque é um autor que tem Aveiro na alma.

Como o Eça de Queirós, Nuno Camarneiro não é de Aveiro, mas passou um período da sua vida em Aveiro, e com ele levou, para a sua vida e para a sua escrita, os sons da natureza, das gaivotas e do mar e a sensação do vento, tão característico da nossa cidade, que faz com que tudo se mova e nada permaneça estático durante muito tempo. O vento que incomoda e o incómodo é sempre bom porque não nos permite instalarmo-nos nos lugares, nas ideias e com tudo o que nos é confortável.

Também como o Eça, nasceu junto ao mar e a vida permitiu-lhe viver durante um período noutra cidade próxima do mar e com muito vento, como a sua Figueira da Foz. Separam-nos mais de uma centena de anos, mas a associação e o carinho que revelam pela nossa cidade fez com que tenha sentido que este era o autor certo para vos apresentar hoje em homenagem à nossa cidade. Conhecemos sempre melhor o que é nosso quando nos pomos nos olhos daqueles que são de fora! E eu fiquei a gostar ainda mais de Aveiro!!

Tem as palavras na ponta dos dedos e mesmo ao lado dos sentimentos e escreve porque não se imagina sem este mundo e não deixa ninguém indiferente à sua escrita, que interpela e desconstrói estereótipos, contribuindo assim para uma sociedade mais humana e mais sensível ao próximo.

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Três ideias para completar:

  • A minha vida sem livros seria... Incompleta
  • Escrever é... Pensar e sentir com os dedos
  • Desde pequeno que vejo nos livros... O mundo que me falta

 

Três perguntas de resposta imediata:

  • Livro ou Kindel? Livro
  • Escrever a computador ou em qualquer papel que tenha à mão? Ambos
  • Escrever ou ler? ambos

 

O seu romance de estreia “No meu peito não cabem pássaros” tem por cenário uma onda de pânico que se vive em 1910 com a passagem de dois cometas pela terra, 120 anos mais tarde, vivemos todos à escala global uma onda de pânico causada por um “inimigo” menos visível e conhecido e tentou difundir-se a ideia que todos ficaríamos melhor. Como imagina Karl, Fernando e Jorge a viverem na crise pandémica da Covid 19?

Da mesma forma com reagiram ao pânico de 1910. Com distanciamento, introspecção e uma grande dose de imaginação para transformar o que assusta no que deslumbra ou encanta, ou desassossega os leitores. São três personagens da literatura, e é para isso que a literatura serve.

 

Para além da linguagem maravilhosa que borda, de forma tão singular, um tapete usando cores e pontos onde é nítida a influência de Kafka, Pessoa e Borges, desafia neste livro o estereotipo do homem “que não chora” e apresenta-nos três homens sensíveis, numa altura em que ainda não era muito frequente essa desconstrução de estereótipos. De alguma forma sente que o seu livro pode ter ajudado a contribuir para essa desconstrução? 

Na verdade, creio que esses estereótipos são mais do cinema, a literatura sempre apresentou homens frágeis e sensíveis. Há mais cowboys nos filmes, não tantos na literatura. Mesmo o Hemingway, que representava, de algum modo, o macho alfa tem personagens masculinas muito frágeis.

 

Valter Hugo Mãe – que muito elogiou o seu livro – escreveu quatro anos mais tarde o livro “Homens imprudentemente poéticos”, um livro em que também nos apresenta dois homens “diferentes” do comum e conscientes dessa diferença. Sente que foi importante desmontar ideias pré-concebidas e apelar ao lado mais sensível de todos nós? Homens e Mulheres? 

O Valter é um grande escritor e um amigo. O nosso trabalho é desmontar ideias banais e montar outras que possam ser mais profícuas, trocar as voltas ao mundo e entrar pelos nervos e sensibilidades dos leitores, abanando-os, surpreendendo-os e brincando com eles.

 

Na pandemia, estava muito presente esta ideia de que a crise que vivíamos ia “salvar e humanizar” a sociedade. Considera a sensibilidade a chave para a salvação da humanidade?

Não há uma única coisa que possa “salvar a humanidade”, temos de lutar imenso e de forma inglória, todos os dias, a todas as horas, para irmos salvando de nós o que vai sendo possível. Talvez os livros salvem de nós o melhor que temos.

 

Para além desta negação do estereótipo do homem que não chora e não mostra sensibilidade, o seu percurso também desconstrói outro preconceito: a ideia de que as ciências exatas e a literatura estão nos antípodas. E embora sejam vários os exemplos que negam esta ideia, no seu caso, como conjuga estas duas áreas tão distintas?

Há muitas coisas que unem ciência e literatura, mas talvez a principal seja mesmo a curiosidade. Perante o mundo, perante os outros, perante nós mesmos. O escritor e o cientista têm de permanecer meninos abertos ao espanto, se não nada vale a pena. A linguagem também é importante e a exactidão científica não é tão distante da exactidão literária como por vezes se pensa. São as palavras ao serviço das ideias, a seguirem à nossa frente em busca de sentido.

 

O grande Eça de Queiroz tem, tal como o Nuno, uma ligação a Aveiro, porquanto embora não tenha nascido cá, passou uma parte da sua infância e juventude em Aveiro em casa da avó paterna. Aveiro inspira a escrever? O que levou, para os seus livros, da sua passagem por Aveiro?

O meu primeiro livro, “No Meu Peito Não Cabem Pássaros” foi terminado em Aveiro e o segundo, “Debaixo de Algum Céu” foi escrito lá também. Aveiro tem o céu e o mar, tem silêncios de gaivotas e uma luz esquisita, que deve ser olhada de forma oblíqua. O olhar oblíquo é próprio da literatura, talvez por isso a cidade se preste aos melhores devaneios.

 

Outra fonte conhecida de inspiração é o mar. O Nuno é da Figueira da Foz e fez parte da sua investigação em Aveiro, duas cidades onde os nossos dias têm como banda sonora o barulho das ondas do mar e a calma ou inquietação que este nos imprime. Tem um cenário ideal para escrever ou inspira-se com as situações e contextos mais simples e inusitados?

Tudo pode inspirar: o mar, sim, o silêncio, sim, mas também o ruído da vida, os desconhecidos que passam ou nos olham por um instante, pássaros são inspirações com asas, cães, gatos, uma televisão em silêncio, uma música antiga, a flauta do amolador, a conversa da vizinha, um vento a assobiar. A Figueira e Aveiro são cidades cheias de vento e o vento é bom porque vem não se sabe de onde e vai para onde quer.

 

O Nuno começou o seu percurso como escritor com as crónicas e só mais tarde se aventurou no romance e na aventura (que me parece mais ousada ainda, mas muito bem conseguida, no seu caso) dos livros para crianças. Como escritor foi-se desafiando e saindo da zona de conforto. Como nasceu o Nuno como leitor, quem o levou a ler e quais as suas maiores referencias literárias?

Os Verões da infância eram enormes e os livros redentores. Primeiro a banda-desenhada, de que ainda gosto muito, logo as aventuras, os Cinco, o Júlio Verne, o Conde de Monte Cristo depois o mundo foi crescendo página a página, até Kafka, Fernando Pessoa, Eça, Umberto Eco, Italo Calvino, Herberto Hélder, Borges… Até hoje.

 

Se no início vos sugeri o seu "No Meu Peito Não Cabem Pássaros", confesso-vos que também me encantou o livro "Debaixo de Algum Céu", livro com o qual venceu o Prémio LeYa e garanto-vos que se vão deliciar com qualquer um destes livros, desafiando-vos ainda a lerem “O fogo será a tua casa” ou, para os adultos que não querem deixar de ser crianças e para os vossos filhos, “A casa das perguntas”, “O que veem as estrelas” e “Não acordem os pardais”. Aceitem este desafio de voltarem à infância e pensarem com o espírito aberto, cheio de dúvidas e capacidade para nos deixarmos surpreender com as respostas que não confirmam o muro de certezas inabaláveis que vamos construindo ao crescer e que nos serve de fortaleza.

Boas leituras e até breve!

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