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O Voto Inútil e a Janela Indiscreta

Opinião

 

O Sr. Estevão vive sozinho, mas não se lamenta. Um ateu confesso, quando está só, está mesmo só.

Tem uma artrite reumatóide que lhe reduziu o raio das suas caminhadas milimétricas, mas não se lamenta.

Quando novo, embarcou na maior das aventuras, e, não sendo descobridor, abraçou a faina demasiado cedo. Era preciso alimentar 5 irmãos.

O frio cortante do Mar do Norte e a humidade gelada das lágrimas da saudade entranharam-se nos ossos e na alma. Também não se lamentou.

A verdade é que aprendeu com o tempo e com a ausência de usar as palavras, a observar. Tornou-se um voyeur, mesmo desconhecendo o termo. Ele usa a palavra curioso.

Da janela das águas furtadas que aluga há mais de 5 décadas, vê toda a fachada de um hotel tão antigo como ele próprio. Vê o amor e o sexo que nunca teve, vê beijos e abraços, vê zangas e reconciliações, vê choros e gargalhadas. Não as ouve mas vê. É esta fachada a montra de uma vida que continua lá fora e sente-se ainda mais só, mas não se lamenta.

Deixou cedo de acreditar nos outros, e abomina pedir o que quer que seja. Nunca implorou. Acreditou demasiado tempo em ilusões de vidas mais prósperas, em felicidades aparentes, em sentir o morno da pele de uma amante, nos discursos do Padre Amílcar e percebeu que tal como o céu, o inferno também não existia.

Acredita nele, na sinceridade dos bons dias da Noémia, padeira, no sorriso terno da Joana que vende flores no mercado, no fugaz abraço do Ernesto que vende jornais, e em pouco mais.

Quando lhe bateram à porta em vésperas de eleições, à pergunta – “O que é que precisa?” – disse, “Companhia… e que me pintem a porta da entrada ”. Até ofereceu as tintas.

Voltou a acreditar, ignorou as dores da torturante artrite e lá foi ele, com a sua melhor camisa, em meias mangas, porque lhe faltava um botão. Era março, mas já conhecia de cor o vento e o frio da cidade dos canais.

Hoje, o Estevão continua sozinho e com a porta por pintar. Cumpriram metade da promessa: deram-lhe um gato, mas continua em silêncio!

Pela primeira vez em 86 anos de vida, lamenta-se.

Reparou entretanto que chegaram mais 3 turistas ao Hotel. Sorte que já tem serão.

 

 

 

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1 Comentário(s)

marta marques
8 mar, 2024

muito bom! parabéns

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